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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Ensolarado byte




Ensolarado Byte é um documentário centrado na trajetória de três artistas-chaves da cena musical pernambucana. O primeiro deles é o DJ e produtor DJ Dolores, pioneiro do Mangue Beat e, hoje, renomado nacional e internacionalmente por seu complexo mix de texturas eletrônicas e orgânicas. O segundo assina simplesmente Neílton, guitarrista da banda de hardcore Devotos, artista plástica e (re)construtor de artefatos tecnológicos os mais variados. Fecha o trio o coletivo Re:combo, representado por Doktor Mabuse, também pioneiro do Mangue Beat e articulador de uma rica reflexão sobre o uso de conceitos como "copyleft" e "licenças de uso abertas".

Esses três músicos/pensadores/construtores são os fios condutores de uma narrativa que pretende trazer para o público a relação entre a nova música pernambucana - aclamada em todo o país por sua diversidade e vigor criativo - e as tecnologias digitais das últimas duas décadas. No Recife, essa fricção foi incentivada pelo desenvolvimento paralelo da cena cultural deflagrada pelo Mangue Beat e de um complexo tecnológico chamado Porto Digital - situado no "Recife Antigo", área portuária que traz as marcas da colonização holandesa - com empresas de software de grande dinâmica.

Não à toa, um dos hinos do Mangue Beat proclama que "computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro": as respostas que os músicos locais encontraram para os impasses e possibilidades trazidas pela revolução tecnológica estão entre as mais interessantes dos últimos tempos. Seguindo uma tradição da periferia em reinventar paradigmas e ferramentas desenvolvidas no "centro do mundo", esses artistas encontraram soluções criativas para a produção e distribuição de suas músicas.

Dirigido por Maurício Correia, Ensolarado Byte mostra que um outro mundo é possível, quando se trata de usar ou (re)pensar a tecnologia para fins criativos. Não é preciso rios de dinheiro para fazer uso vantajoso das possibilidades que ela traz. E melhor: se os ganhos artísticos são inegáveis, um importante feedback acontece na área social, com geração de empregos e aumento da auto-estima. Recife, tão pobre, mas culturalmente tão diversificada, nos oferece essa importante lição.


Diretor: Mauricio Corrêa
Produtor: Asas Cinema e Video / TV Universitaria PE / Fundação Padre Anchieta / TV Cultura
Site Oficial e download: http://ensolaradobyte.blogspot.com
Licença: Atribuição - Uso Não-Comercial - Não a obras derivadas 2.5

Apoio
ABD/APECI
3 Brasis Comunicação Cultural
Idéia e Imagens
Porto Digital
Organização do Porto Musical
Oficina de Imagens
Paulo André - Nave Produções

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Aumenta o zoom que é punk

Vamos fazer um exercício de imaginação. Imagine se o programa Google Earth captasse não fotografias de satélite e sim sons e movimentos das mais diferentes localidades do planeta. Se isso fosse possível, eu sugeriria que você digitasse “Alto José do Pinho” no mecanismo de busca desse programa. Você veria, então, o zoom se aproximando do local escolhido: América do Sul, Brasil, Pernambuco, Recife, Casa Amarela, Alto José do Pinho. A imagem panorâmica mostraria uma arquitetura precária, denunciando que a localidade que lhe indiquei é um bairro pobre, uma favela. O zoom continuaria ativo e se aproximaria mais, mostrando uma intensa movimentação. E aí desconfio que, calcado nas recorrentes notícias que proliferam nos jornais brasileiros, você desconfiaria estar presenciando uma movimentação de tráfico de drogas. Eu lhe diria então para ligar o som do computador. Entre os sons cotidianos de crianças brincando nas ruas e de pessoas conversando, você ouviria música, muita música, principalmente punk. E pode ter certeza, essa movimentação não inclui tráfico.


No entanto, o Alto José do Pinho já foi conhecido pela intensidade da violência e do tráfico. Mas isso começou a mudar quando, no final da década de 1980, um grupo de meninos do “Zé do Pinho” começou a “curtir” música punk. Entre tantos ritmos que povoavam a vizinhança, como o caboclinho, o maracatu, o coco e a ciranda, os meninos do “Zé do Pinho” se identificaram com o punk e passaram a se definir como tais. Como disse Silvio Essinger:


Em qualquer lugar do mundo, por mais carente que seja a comunidade, haverá sempre uma guitarra vagabunda plugada num amplificador podre e uma bateria de lata para que garotos descubram a inigualável experiência de fazer os seus próprios sons. E, uma vez que montem suas primeiras bandas, eles decerto quererão escrever letras que falem do seu cotidiano e de suas inquietações, seja de forma brincalhona ou sisuda, coerente ou delirante. Pois bem, isso é punk rock[1].


Se identificar com a música punk não significava negar uma identidade local em prol de uma identidade estrangeira. Ao contrário, significava se apropriar localmente de um estilo de vida globalizado. E foi através do punk que o Alto José do Pinho deixou de ser reconhecido pela violência e passou a ser conhecido como “Celeiro de bandas”, aumentando a auto-estima não só dos punks do Alto, mas de todos seus moradores. Se você já foi lá, você sabe como é. Se algum dia você for lá, você verá!!

[1] ESSINGER, Silvio Punk. Anarquia planetária e a cena brasileira São Paulo: Editora 34, 1999 (p.15)