Mostrando postagens com marcador release. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador release. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Caranguejos com Cérebro

Mangue - O conceito

Estuário. Parte terminal de um rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos dos mares. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo.

Estima-se que duas mil espécies de microorganismos e animais vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação do mangue. Os estuários fornecem áreas de desova e criação para dois terços da produção anual de pescados do mundo inteiro. Pelo menos oitenta espécies comercialmente importantes dependem dos alagadiços costeiros.

Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas os mangues são tidos como os símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.

Manguetown - A cidade

A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada, é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex) cidade "maurícia" passou a crescer desordenadamente as custas do aterramento indiscriminado e da destruição dos seus manguezais.

Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica noção de "progresso", que elevou a cidade ao posto de "metrópole" do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.

Bastaram pequenas mudanças nos "ventos" da história para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem no início dos anos 60. Nos últimos trinta anos a síndrome da estagnação, aliada à permanência do mito da "metrópole", só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano.
O Recife detém hoje o maior índice de desemprego do país. Mais da metade dos seus habitantes moram em favelas e alagados. Segundo um instituto de estudos populacionais de Washington, é hoje a quarta pior cidade do mundo para se viver.

Mangue - A cena

Emergência! Um choque rápido, ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico pra saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruir as suas veias. O modo mais rápido também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paraliza os cidadãos? Como devolver o ânimo deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco da energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

Em meados de 91 começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo é engendrar um "circuito energético", capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo, uma antena parabólica enfiada na lama.

Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em: quadrinhos, tv interativa, anti-psiquiatra, Bezerra da Silva, Hip Hop, midiotia, artismo, música de rua, John Coltrane, acaso, sexo não-virtual, conflitos étnicos e todos os avanços da química aplicada no terreno da alteração e expansão da consciência.


domingo, 4 de maio de 2008

O segundo

Sempre achei estranho que existisse um segundo manifesto do Mangue, se nunca houve um primeiro. Afinal, "Caranguejos com cérebro" era um release.


Renato L: “Quando o release chegou nas redações, até pelo tipo de texto como foi construído, a imprensa começou a chamar aquilo de manifesto. “Manifesto Mangue, Manifesto Mangue, Manifesto Mangue.”[1]

Mabuse: “... mas era um release, não tinha “Ah, vamos lançar um manifesto”, era um release...”[2]

“Quanto vale uma vida”, o segundo manifesto do Mangue, foi escrito por Renato L e Fred Zero Quatro, em homenagem a Chico Science, logo após a sua morte. Esse foi um momento crítico para os mangueboys dado que a figura de Chico Science era o ícone do Mangue. Quando, em 2 de fevereiro de 2007, o carro que Chico Science dirigia se chocou com um poste na avenida que liga Recife a Olinda, a morte do cantor foi vista pela imprensa como a morte do Mangue. A dúvida quanto ao fôlego de sobrevivência da Cena Mangue já rondava a imprensa desde os lançamentos dos Cds Afrociberdelia, segundo CD de Chico Science & Nação Zumbi e Guentando a ôia, segundo CD de mundo livre s.a., em 1996. A polêmica atingiu seu ápice com a morte de Chico. Foi esse contexto que levou Renato L e Fred Zero Quatro a definirem “Quanto vale uma vida” como um manifesto. Naquele momento, os mangueboys acreditaram que era preciso um posicionamento firme diante das diversas previsões de que o Mangue acabaria.[3]

-Não, o segundo manifesto já é assumido como manifesto mesmo. Deixa quieto.

(- E segundo.)

- Como?

(- Segundo.)

- É o segundo, exatamente. É verdade, não tem o primeiro, mas tem o segundo, é verdade. É verdade, pois é, esse movimento é cheio de falhas na construção. É um fracasso, é um fracasso. (risos) [4]



[1] Entrevista com Renato L - 09 de fevereiro de 2007 – Recife (por Rejane Calazans e Clarisse Vianna)

[2] Entrevista com Mabuse – 09 de fevereiro de 2007 – Recife (por Rejane Calazans e Clarisse Vianna)

[3] Entrevista com Renato L, por telefone – 25 de janeiro de 2006 (por Rejane Calazans)

[4] Entrevista com Renato L - 09 de fevereiro de 2007 – Recife (por Rejane Calazans e Clarisse Vianna)