quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Brasil, Brasil
domingo, 20 de janeiro de 2008
E o Mangue não era necessariamente fusão. Parece o punk em NY, se no punk inglês, a maioria das bandas pegou aquela base sonora dos Ramones e transformaram, vamos dizer, o punk num estilo musical, todas as bandas injetavam alguma coisa nova. Tipo sex pistols, buzz, the clash, todas botavam alguma coisa nova no som. Mas a base, era a base sonora dos ramones. Isso o punk inglês, já em nova York, existia a idéia do punk, mas havia uma total diversidade musical. Tipo tal king heads não parecia com som de ramones que não parecia com som de the sets que não parecia com som de television. O punk não era um estilo musical, era aquela atitude de fazer musica ali naquele lugar, naquele barzinho. Mas não era, não tinha uma comunidade sonora, não era um estilo musical. Depois quando foi pra Inglaterra, se tornou. E o Mangue tem a ver com isso(...)[1] A gente é dessa estética, se aproximando da estética punk, de atitude e musicalmente falando também. É de você tentar correr atrás, o máximo, correr mesmo, tentar se agarrar ao que você quer fazer. Chico era um cara muito determinado nesse sentido. É o que dava o empurrão em todo mundo, que batia de porta em porta, chamando os caras. E o que a gente se aproximou mais dessa cena punk e tal, acho que foi dessa cena inglesa, onde brancos e negros se encontraram pela primeira vez. E o Clash é um ícone maior também. Acho que o mais próximo do que é punk. O Clash se projetou no mundo de uma maneira, não tinha como deixar de ver, de ouvir...[2] eu acho que o punk, cara, foi um ... Não chegou a ser um movimento também não. Porque se você parar e for ver a fundo, não existiu uma estética própria não. não era um movimento. E também durou quanto tempo, o punk? Ao mesmo tempo aquilo ali, a idéia do despojamento e do impacto visual, da contra-cultura, isso foi mais importante do que a estética musica, que quase não existiu. Não existiu uma estética punk. Então é muito mais uma parada intelectualizada do que uma estética musical. Era mais comportamental. Assim como o movimento mangue também. Não era uma estética musical, nunca foi.[3]
segunda-feira, 19 de março de 2007
E a tradição?

A consagrada mistura que o “alquimista dos sons” fez entre hip-hop e maracatu e revolucionou a música brasileira irritou Ariano Suassuna, o menestrel do Movimento Armorial. Nesse sentido, Renato L, diz que as diferenças entre o Mangue e o Movimento Armorial são intransponíveis:
A tentação de colocar numa espécie de solução em formol as manifestações populares nunca fez parte de nossos planos. Muito pelo contrário, a idéia era dar condições para que elas pudessem dialogar com o mundo contemporâneo, fertilizando-se no processo e assim voltando à vida. A homenagem que os maracatus prestaram à memória de Chico durante o seu velório foi a maior prova de reconhecimento desse trabalho.
A despeito dos queixumes de Ariano Suassuna, o fato é que foi a partir do sucesso de Chico Science que a batida do maracatu se espalhou pelo Brasil e pelo mundo. Hoje se tem grupos de maracatu no Rio, em Florianópolis e até em Nova York, para citar apenas três lugares. Como disse Mestre Valter, citado pela inglesa Nicki Dupuy, em pesquisa que ela efetuou sobre o Manguebeat:
Chico (Science) nos deu um grande suporte. Ele fez isto reemergir. Porque ele nos trouxe o povo. Ele trouxe adultos, jovens e crianças. Ele fez nosso ritmo, nossa cultura, nossa cor reemergir.
Então, isso significa que Mangue é a mistura entre o tradicional e o popular? Não parece ser tão simples assim. Cito aqui o que DJ Dolores afirma no documentário “ensolarado byte”:
Tem uma expressão que eu detesto que é o “mix da tradição com a modernidade. Como se tocar rabeca não fosse uma coisa contemporânea, não fosse uma coisa tão moderna como tu tocar um disco ou tocar um sampler. Esse tipo de oposição é irreal e acho que é meramente um estereotipo fácil, uma leitura muito fácil de uma possibilidade musical rica.
DJ Dolores contesta quando chamam seus shows de mix de tradição e modernidade, por ele tocar com seu laptop e suas máquinas dividindo o palco com a rabeca de Mestre Salustiano. Isso parece se aproximar mais do que a Cena Mangue propunha.
Seria essa a mistura entre tradição e modernidade presente no Mangue, na verdade uma não mistura, em que o supostamente tradicional não é visto como em oposição ao supostamente moderno? Não há dualidade, mas convivência?
Para saber mais sobre a polêmica entre o Ariano Suassuana e a Cena Mangue, leia a dissertação “O Encontro do Velho do Pastoril com Mateus na Manguetown ou As tradições populares revisitadas por Ariano Suassuna e Chico Science”, de Anna Paula de Oliveira Mattos Silva, defendida pela PUC e vencedora do Prêmio Romero Britto.
Sobre a relação da Cena Mangue com o maracatu, há a dissertação “As Nações de Maracatu do Recife e o maracatu no Rio – algumas reflexões sobre tradição, ressignificação e mediação cultural”, de Aline Valentim de Albuquerque, defendida na UERJ.