domingo, 4 de maio de 2008

Lucas e o Quiz

Lucas tem 17 anos. O sonho dele? Ser editor. Para isso, começou a fazer estágio em uma produtora. Mas, o sonho dele parecia estar longe de ser realizado. Lucas era mais officeboy do que assistente de edição. Ele fazia os serviços de banco e compras. Mas sempre fazia alguma coisa errada. O que nãoe era mais um motivo para os chefes dele o humilharem. Na verdade, eles não precisavam de motivo para isso. Já fazia parte do ritual diário, talvez já parte do TOC de Sandro, o editor. Com o tempo, Lucas começou a mexer na ilha de edição. Não, ele não começou a pagar as contas em dia, nem deixou de esquecer o troco na loja e muito menos passou a comprar os sanduíches certos. E também não deixou de ser humilhado. Simplesmente, acho que seus chefes cansaram de vê-lo parado, fuçando o orkut. Acho que era mais uma tentativa de maltratá-lo.

Foi nesse momento que o conheci. Ele era estagiário da QK, onde eu e Clarisse editamos nosso documentário. Lucas nunca tinha ouvido falar em Manguebeat. Chico Science, ele conhecia. O irmão dele tinha um CD, aquelas coletâneas Milenium, ou algo do gênero. Lucas, por sua persistência em errar sempre, não acertar nunca, mas continuar tentanto, virou o assistente de edição do nosso documentário. Sabe como é, orçamento baixo, a gente paga pouco e engole sapo. Lucas foi responsável por captar as imagens. Um dia, resolvi testar os conhecimentos dele acerca do Mangue e pedi para ele fazer o quiz do mangue. E não é que ele tinha aprendido. O menino acertou quase tudo.


P.S.: O que é real nisso tudo: O Lucas realmente não sabia nada de Manguebeat e aprendeu na Ilha de Edição. Ou seja, ele é esperto. Ele não errava os sanduíches. O pessoal da QK é muito gente boa e os maltratos ao Lucas não eram diários. O editor Sandro tem TOC mesmo, não consegue ver um porta-copo fora do seu suposto lugar. Mas é um ótimo editor, DJ, ator e pai. Sandro nos ajudou muito a pensar o filme e fazê-lo ter o tamanho que deveria. Ele era um ótimo patrão para o Lucas. Sim, nós pagamos pouco, mas recebemos serviço de primeira. Indico a Quebra Kabeça de olhos fechados. Porque de olhos abertos....piada ridícula, eu sei. Falando sério, a QK é ótima e tem sempre uísque: http://www.qkproducoes.com/v1.html

P.S2: O que é realmente real nisso tudo: O quiz é muito fácil, qualquer um acerta tudo. E o Lucas ainda conseguiu errar.

Quanto vale uma vida - o segundo manifesto Mangue

QUANTO VALE UMA VIDA.

I - LONGA VIDA AO GROOVE!

Os alquimistas estão chorando. A indignação ruidosa de Lúcio Maia com a ferocidade carniceira da imprensa nos faz lembrar que nem tudo tem que ser movido a cinismo e oportunismo no - cada vez mais - cínico e vulgar circuito pop.
Antes de mais nada, salve Lúcio, Jorge, Dengue, Gilmar, Toca, Gira e Pupilo. Salve Paulo André e longa vida ao Nação Zumbi, com seu groove imbatível, mix epidêmico e urgente de química e magia que cedo ou tarde vai varrer o mundo! A primeira vez que vimos Chico juntando a Loustal com o Lamento Negro (o embrião do que seria a Nação Zumbi, ainda no início de 91), comentamos arrepiados, eu e Renato L.:"não importa que estejamos no fim do mundo e sem dinheiro no bolso; não tem errada, não há nada no mundo que possa deter esse som!" Na nossa ficha, constava a produção de vários programas de Rock na cidade, onde nos esforçávamos para mostrar sons novos e interessantes de todos os cantos do mundo. E não havia dúvida de que naquele momento estávamos diante de algo absurdamente novo e irresistível. Começamos imediatamente a viajar num conceito capaz de colocar o Recife no mapa. É claro que houve momentos nos últimos anos em que chegamos a pensar que talvez tivéssemos ajudado a criar uma espécie de monstro incontrolável. Mas hoje sabemos que agimos bem, não poderíamos agir de outro modo.
- E agora, mangueboys?
Chico era referência e inspiração para muita gente, talvez para toda uma geração de recifenses. E a perda para a Nação Zumbi é irreparável em termos de carisma, energia vocal, gestual, etc. Ninguém questiona isso. Mas o que muita gente esquece é que a fórmula criada por Chico tinha uma base muito sólida em termos de cozinha, acompanhamento, groove. A maioria das pessoas desconhece alguns fatos. Quando eu conheci Francisco França, ele era o lado mais extrovertido da mais nova dupla do barulho da cidade. Chico e Jorge eram inseparáveis como unha e carne, egressos da "Legião Hip Hop", que reunia no final dos anos 80, alguns dos melhores dançarinos e djs que o Recife já conheceu ( alguém aí já viu Jorge Du Peixe dançando "street"? A galera que hoje em dia ensina funk nas academias de dança não daria nem pro caldo...).
Jorge sempre foi um pouco mais tímido, mas não menos engraçado, e os dois se completavam em termos de gosto, idéias, visão e criatividade. Chico sempre teve mais iniciativa e era, como todos sabemos, um letrista formidável. Mas alguém aí se lembra quem é o autor da letra do clássico "Maracatu de Tiro Certeiro"? Isso mesmo, Jorge Du Peixe...
Quanto a Lúcio Maia, qualquer um que acompanhe a Guitar Player, sabe que é cada vez maior o número de pessoas que o consideram um dos mais talentosos e ecléticos guitarristas brasileiros, uma verdadeira revelação dos últimos tempos. Dengue, então, é aquele baixista contido, discreto, mas super-eficiente. Desde os tempos do Loustal, ele sempre conseguiu encaixar a levada perfeita para o estilo fragmentado dos versos de Chico. E quanto aos tambores e à bateria, nem é preciso comentar. Não se via, no rock and roll, uma engrenagem tão potente e envenenada desde a morte de John Bonham.
Quando toda a crítica brasileira caiu de quatro sob o impacto avassalador do "Da Lama ao Caos", houve no Recife quem apostasse que Chico despontaria em carreira solo já no segundo disco. Argumentavam que, por um lado Chico tinha luz própria de sobra e por outro a fórmula do Nação Zumbi não renderia mais nada interessante, pois já teria se esgotado. Eu e Renato torcemos para que acontecesse o contrário, para que Chico não se rendesse à vaidade pessoal e injetasse todo gás possível no fortalecimento da banda. Ele não decepcionou, mostrou que não era nem um pouco ingênuo ou deslumbrado e que sabia muito bem do que precisava para se manter no topo. O resultado foi o brilhante "Afrociberdelia", um trabalho coletivo - com Lúcio mais ativo do que nunca do que nunca na produção.
Portanto, se existe uma banda que tem total autoridade e potencial para ocupar condignamente o lugar que o inesquecível Chico Science deixou vago no topo, essa banda é sem dúvida a Nação Zumbi. Por sinal, o próprio Chico nem cogitava em dar por esgotado o formato da banda, tanto que já planejava entrar com os brothers no estúdio ainda este ano para gravar o terceiro disco. LONGA VIDA AO GROOVE!!!


II- BUSCANDO RESPOSTAS

"Something is happening here, but you don´t know what it is. Do you, Mr Jones?" Essa frase de Bob Dylan me vem à mente sempre que eu penso no tom de alguns comentários publicados nos maiores jornais do país a respeito da morte de Chico. Talvez com intenção de pintar o fato com as cores mais chocantes, expurgando, assim, a dor e a revolta da perda, as matérias acabavam invariavelmente emitindo um tom derrotista ou até desolador.
Se o caso é especular sobre o que pode acontecer daqui em diante, o mais oportuno seria tentar identificar na história do Pop, fatos ou situações semelhantes que possam servir de exemplos. Em se tratando de movimentos de cultura Pop; gerados em focos isolados; situados na periferia do mercado; e com reconhecimento mundial, os fenômenos mais correlatos ao Mangue Beat que se tem notícia - ainda que os estágios de desenvolvimentos sejam distintos - são a Jamaica pós-Bob Marley e Salvador pós-Tropicalismo.
Sobre Salvador, minha experiência como mangueboy me diz que o Tropicalismo não surgiu lá por acaso. Nada no mundo poderia ter impedido o caldo cultural da cidade de gerar posteriormente ( e na sequencia ) os Novos Baianos, A Cor do Som, os trios elétricos, a Axé Music, o Samba - Reggae, a Timbalada, etc. Também não foi por milagre que a Jamaica se tornou berço do Calipso, do Ska, do Reggae, do Dub, do Raggamuffin e de todas as variantes do Dancehall que hoje, quase 20 anos depois da morte de Marley, contaminam as paradas de sucesso de todo o mundo.
Esses dois fenômenos foram condicionados por combinações específicas de fatores geográficos, econômicos, políticos, sociológicos, antropológicos, enfim, culturais, cuja história eu não seria capaz de analisar. Mas em se tratando de focos isolados que a partir de um determinado estímulo geram uma reação em cadeia capaz de contaminar toda a história futura de uma comunidade, meu depoimento talvez possa ser útil.

III- UMA VISITA MUITO ESPECIAL

Lembro-me muito bem do nervosismo que tomou conta da cidade quando, em 93 (logo após o primeiro Abril Pro Rock), a diretoria da Sony anunciou que mandaria um representante ao Recife para contratar Chico Science... Fun! Fun! Zoeira Total! Diversão a qualquer custo, e a mais barulhenta possível! Esse havia sido o nosso lema quando, dois anos antes, sentindo o descompasso - o fundo do poço, o infarto iminente - , resolvêramos tentar de tudo para detonar adrenalina no coração deprimido da cidade. Depois de vários shows e eventos muito bem sucedidos, e do manifesto "Caranguejos com Cérebro" ( que transformou, de uma hora para outra centenas de arruaceiros inocentes em "mangueboys" militantes ), parecia que a cidade realmente começava a despertar do coma profundo em que esteve mergulhada desde o início da guerra dos 80.
Parêntese: não é exagero. Segundo os levantamentos mensais do DIEESE, Recife conseguiu manter sem muito esforço a impressionante e isolada posição de campeã nacional do desemprego e da inflação por nada menos que dez anos seguidos!!! Imaginem o efeito devastador que uma situação como essa pode provocar na alma de uma comunidade com mais de 400 anos de história e que só neste século havia gerado nomes da dimensão de Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, Josué de Castro e João Cabral de Melo Neto. Para nós, que mal havíamos saído da adolescência só restavam duas saídas: tentar uma bolsa na Europa ou ganhar as ruas...
Então, a chegada da Sony representava uma espécie de prêmio coletivo. O significado simbólico era que finalmente podia estar se abrindo um canal de comunicação direta com o mercado mundial, como os caranguejos do asfalto haviam almejado em seu primeiro manifesto. Para todos os agentes e operadores culturais que viam seu talento e potencial atrofiados pela desmotivação, era o estímulo concreto que faltava. Afinal, queiram ou não, discos pop lançados por multinacionais movimentam várias áreas de expressão ao mesmo tempo: moda, fotografia, design, produção gráfica, vídeos, relações públicas, assessoria, imprensa, marketing, música,etc.
Daí em diante, pode-se dizer que teve início um efetivo "renascimento" recifense. Todo mundo gritou mãos à obra! e partiu para o ataque. As ruas viraram passarelas de estilistas independentes; bandas pipocaram em cada esquina; palcos foram improvisados em todos os bares; fitas demo e clipes novos eram lançados toda semana, e assim por diante, gerando uma verdadeira cooperativa multimídia autônoma e explosiva, que não parava de crescer e mobilizar toda a cidade. De headbangers a mauricinhos, de punks a líderes comunitários, de surfistas a professores acadêmicos, ninguém ficou de fora. Para se ter uma idéia, a frase " computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro" ( Mundo Livre SA ) virou tema de redação de vestibular de uma faculdade local.

IV - MANGUETOWN, 5 ANOS DEPOIS

O renascimento segue de vento em popa. A noite mais concorrida do último Abril Pro Rock foi a que reuniu três bandas locais. Mais de cinco mil pessoas pagaram ingresso e enfrentaram uma chuva intensa para aplaudir e cantar junto com Mundo Livre SA, Mestre Ambrósio e Chico Science e Nação Zumbi. O festival "Viva a Música", realizado em setembro passado, reuniu mais de 50 novas bandas. O disco de estréia da campeã, Dona Margarida Pereira e os Fulanos, está em fase de gravação. O programa Mangue Beat (Caetés FM 99.1) ocupa há 2 anos os primeiros lugares de audiência, tocando fitas demo e lançamentos locais, além de novidades de todos os cantos do planeta. O "Manguetronic", um programa de rádio idealizado especialmente para a Internet, vem se firmando como um dos sites mais acessados do Universo on Line. Os últimos cds do Chico Science e Nação Zumbi e do Mundo Livre SA e a estréia do Mestre Ambrósio figuraram na lista dos dez melhores do ano da revista Showbizz. Estão em fase de finalização os aguardados albuns de estréia das bandas Eddie e Devotos do Ódio. O Abril pro Rock 97 entrou pela primeira vez no calendário de eventos oficiais do Estado, ganhando assim uma ampla divulgação nacional e uma infra-estrutura mais organizada. A estréia em longa-metragem dos cineastas pernambucanos Lírio Ferreira e Paulo Caldas - o filme "O Baile Perfumado", cuja trilha é assinada por Chico Science, Siba (do Mestre Ambrósio) e Zero Quatro - ganhou vários prêmios, entre eles o de melhor filme, no último Festival de Cinema de Brasília. O estilista Eduardo Ferreira já recebeu vários prêmios nas últimas edições do Phytoervas Fashion. O Mundo Livre S.A. acaba de fazer 4 shows e um clipe no México, devendo participar de vários festivais europeus no segundo semetre...
(Pausa para respirar)
Temos como objetivo imediato pressionar a Prefeitura do Recife para tirar do papel e colocar no ar a rádio Frei Caneca FM, uma emissora sem fins lucrativos cujo orçamento para 97, ao que parece, já foi aprovado pela CÂmara Municipal. Afinal, o único e mais difícil obstáculo que ainda não superamos foi o das rádios comerciais. Sabemos que na Jamaica e em Salvador foi preciso o uso até de ações violentas para pressionar os disc - jóckeis. No estágio atual, não achamos que recursos sejam necessários. O Popspace não é invulnerável e a história está do nosso lado.
Quem acompanhou no Recife as últimas homenagens a Chico, sentiu a força de um compromisso coletivo. Hoje cada recifense tem no olhar um pouco de guerrilheiro da Frente Pop de Libertação. E o recado que queremos enviar para o mundo não é muito diferente daquele que nos mandam as comunidades indígenas de Chiapas- que têm no subcomandante Marcos o seu porta-voz. VIVA SANDINO! VIVA ZAPATA! VIVA ZUMBI! A utopia continua...
"- Quanto vale a vida de um homem, em quanto cada um avalia a sua própria vida, a troco de quê está disposto a mudá - la? Nós avaliamos muito alto o preço de nossas vidas. Valem um mundo melhor, nada menos. Homens e mulheres, dispostos a dar suas vidas, têm direito a pedir tanto quanto valem. Há os que avaliam suas vidas por uma quantidade de dinheiro, mas nós a avaliamos pelo mundo, esse é o custo do nosso sangue..." (Subcomandante Marcos)

Ass: Zero Quatro, com a colaboração de Renato L.

O segundo

Sempre achei estranho que existisse um segundo manifesto do Mangue, se nunca houve um primeiro. Afinal, "Caranguejos com cérebro" era um release.


Renato L: “Quando o release chegou nas redações, até pelo tipo de texto como foi construído, a imprensa começou a chamar aquilo de manifesto. “Manifesto Mangue, Manifesto Mangue, Manifesto Mangue.”[1]

Mabuse: “... mas era um release, não tinha “Ah, vamos lançar um manifesto”, era um release...”[2]

“Quanto vale uma vida”, o segundo manifesto do Mangue, foi escrito por Renato L e Fred Zero Quatro, em homenagem a Chico Science, logo após a sua morte. Esse foi um momento crítico para os mangueboys dado que a figura de Chico Science era o ícone do Mangue. Quando, em 2 de fevereiro de 2007, o carro que Chico Science dirigia se chocou com um poste na avenida que liga Recife a Olinda, a morte do cantor foi vista pela imprensa como a morte do Mangue. A dúvida quanto ao fôlego de sobrevivência da Cena Mangue já rondava a imprensa desde os lançamentos dos Cds Afrociberdelia, segundo CD de Chico Science & Nação Zumbi e Guentando a ôia, segundo CD de mundo livre s.a., em 1996. A polêmica atingiu seu ápice com a morte de Chico. Foi esse contexto que levou Renato L e Fred Zero Quatro a definirem “Quanto vale uma vida” como um manifesto. Naquele momento, os mangueboys acreditaram que era preciso um posicionamento firme diante das diversas previsões de que o Mangue acabaria.[3]

-Não, o segundo manifesto já é assumido como manifesto mesmo. Deixa quieto.

(- E segundo.)

- Como?

(- Segundo.)

- É o segundo, exatamente. É verdade, não tem o primeiro, mas tem o segundo, é verdade. É verdade, pois é, esse movimento é cheio de falhas na construção. É um fracasso, é um fracasso. (risos) [4]



[1] Entrevista com Renato L - 09 de fevereiro de 2007 – Recife (por Rejane Calazans e Clarisse Vianna)

[2] Entrevista com Mabuse – 09 de fevereiro de 2007 – Recife (por Rejane Calazans e Clarisse Vianna)

[3] Entrevista com Renato L, por telefone – 25 de janeiro de 2006 (por Rejane Calazans)

[4] Entrevista com Renato L - 09 de fevereiro de 2007 – Recife (por Rejane Calazans e Clarisse Vianna)

tamo aí mandando brasa

Com a morte de Chico Science, em dois de fevereiro de 1997, se intensificou a suspeita de que o Mangue estaria chegando ao fim. Bem, se o fôlego da Cena Mangue após a morte de Chico era colocado em dúvida, o fim da Nação Zumbi era certo. Era, mas não foi. Em homenagem a Chico, e como resposta aos rumores, os "naçãos" mostraram que continuavam "mandando brasa". Jorge Du Peixe, Bola Oito, juntos com Fred Zero Quatro e Falcão, fizeram "Malungo". Que contou com a participação de Jorge Benjor, Fred Zero Quatro, Falcão e Marcelo D2.




domingo, 20 de janeiro de 2008

E o Mangue não era necessariamente fusão. Parece o punk em NY, se no punk inglês, a maioria das bandas pegou aquela base sonora dos Ramones e transformaram, vamos dizer, o punk num estilo musical, todas as bandas injetavam alguma coisa nova. Tipo sex pistols, buzz, the clash, todas botavam alguma coisa nova no som. Mas a base, era a base sonora dos ramones. Isso o punk inglês, já em nova York, existia a idéia do punk, mas havia uma total diversidade musical. Tipo tal king heads não parecia com som de ramones que não parecia com som de the sets que não parecia com som de television. O punk não era um estilo musical, era aquela atitude de fazer musica ali naquele lugar, naquele barzinho. Mas não era, não tinha uma comunidade sonora, não era um estilo musical. Depois quando foi pra Inglaterra, se tornou. E o Mangue tem a ver com isso(...)[1] A gente é dessa estética, se aproximando da estética punk, de atitude e musicalmente falando também. É de você tentar correr atrás, o máximo, correr mesmo, tentar se agarrar ao que você quer fazer. Chico era um cara muito determinado nesse sentido. É o que dava o empurrão em todo mundo, que batia de porta em porta, chamando os caras. E o que a gente se aproximou mais dessa cena punk e tal, acho que foi dessa cena inglesa, onde brancos e negros se encontraram pela primeira vez. E o Clash é um ícone maior também. Acho que o mais próximo do que é punk. O Clash se projetou no mundo de uma maneira, não tinha como deixar de ver, de ouvir...[2] eu acho que o punk, cara, foi um ... Não chegou a ser um movimento também não. Porque se você parar e for ver a fundo, não existiu uma estética própria não. não era um movimento. E também durou quanto tempo, o punk? Ao mesmo tempo aquilo ali, a idéia do despojamento e do impacto visual, da contra-cultura, isso foi mais importante do que a estética musica, que quase não existiu. Não existiu uma estética punk. Então é muito mais uma parada intelectualizada do que uma estética musical. Era mais comportamental. Assim como o movimento mangue também. Não era uma estética musical, nunca foi.[3]


[1] Entrevista com João - The Playboy - 08 de fevereiro de 2007 - Recife

[2] Entrevista com Jorge Du Peixe - Nação Zumbi - 24 de abril de 2007 - São Paulo

[3] Entrevista com Lucio Maia - Nação Zumbi - 24 de abril de 2007 - São Paulo

Em qualquer lugar do mundo, por mais carente que seja a comunidade, haverá sempre uma guitarra vagabunda plugada num amplificador podre e uma bateria de lata para que garotos descubram a inigualável experiência de fazer os seus próprios sons. E, uma vez que montem suas primeiras bandas, eles decerto quererão escrever letras que falem do seu cotidiano e de suas inquietações, seja de forma brincalhona ou sisuda, coerente ou delirante. Pois bem, isso é punk rock. [1]

No Brasil, a cena punk se embrenhou em diversas cidades. Mas as cidades-ícones foram São Paulo e Brasília. Brasília de onde surgiram as bandas do B-Rock na década de 1980. Em São Paulo, os punks prometiam "Estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira; para pintar de negro a asa branca; atrasar o trem das onze; pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer."[2] Mas, segundo Bivar, apesar da proposta ser genial, os punks de São Paulo não fizeram isso até agora. A asa branca, o trem das onze e a Amélia ainda não foram superadas. Talvez por isso o jornalista carioca Pedro Só diga que o punk de São Paulo deu mais certo em Recife, com o Mangue.[3] Para a jornalista paulistana Bia Abramo, o passo adiante que os punks de Recife deram ao criar a Cena Mangue foi terem se inspirado em Malcolm Maclaren:

(...) eles leram melhor o punk. Porque eles leram Malcolm Maclaren. Eles não leram simplesmente a rebeldia. Eles leram a armação.[4]



[1] ESSINGER, Silvio Punk. Anarquia planetária e a cena brasileira São Paulo: Editora 34, 1999 (p.15)

[2] Clemente - Inocentes - citado por Bivar em entrevista dada a Renato L, Diario de Pernambuco

[3] Entrevista com Pedro Só por Rejane Calazans e Clarisse Vianna em 03 de fevereiro de 2007

[4] Entrevista com Bia Abramo por Rejane Calazans e Clarisse Vianna em 23 de abril de 2007

Por incrível que pareça...

No material de qualificação da minha pesquisa, fiz referência à relação entre o Manguebeat e os punks. Essa afirmação causou estranheza à banca. Santuza Naves me perguntou como os mangueboys tão solares poderiam ter relação com os punks tão soturnos. Mas essa estranheza é apontada até mesmo pelos mangueboys, como Rogerman enfaticamente observou ao falar do início da Cena Mangue.

Sem dúvida, Mangue nasceu do punk, por mais louco que isso possa parecer. (...)[1]

De fato, se compararmos o estereótipo do Mangue com Chico Science, que foi grande ícone do Manguebeat, a estranheza só faz aumentar.

No entanto, Renato L e Fred 04 eram punks e não eram os únicos. Rogerman continua seu argumento de que a origem do Mangue estaria no punk.

Todos os cabeças do Manguebeat, Chico, Mabuse, Renato L, 04... 04 era punk mesmo. 04 era punk! Tinha filosofia punk de vida. (...) Então, aquela coisa de, a própria estrutura do Eddie na época, mesmo sem querer, a gente não tinha tanto esse foco como os meninos tinham, do punk, mas virou punk, porque a gente que fazia tudo. (...) Então, a atitude punk na época era sangue, suor e cerveja. Era se divertir, era fazer eventos, ir de encontro ao padrão vigente na época, musical, estético, você ir de encontro àquilo. [2]

Ou seja, Rogerman também nós dá pista para pensarmos que a influência do punk no Mangue estrapola os estereótipos, ela não está na aparência, mas no princípio: “Do it yourself!”.



[1] Entrevista com Rogerman por Rejane Calazans e Clarisse Vianna em 10 de fevereiro de 2007

[2] Entrevista com Rogerman por Rejane Calazans e Clarisse Vianna em 10 de fevereiro de 2007

Punk, o conceito

Não é algo que coloque em palavras e comece a rotular. É algo espiritual a qual vai além de pessoas com visual punk rock.[1]

Existe a controvérsia: aonde o punk nasceu? Em Nova York , com aquela cena em torno do CBGB, ou em Londres, com os Sex Pistols? Como o cineasta Jim Jarmusch observou, apesar das diferenças , “(...) havia o sentido de uma comunidade internacional de idéias” (Punk Attittude – documentário de Don Letts).

Essa comunidade se espalhou pelo mundo e o punk tornou-se uma “comunidade de sentido”, ou seja, uma agregação de indivíduos que partilham interesses comuns, vivenciam determinados valores, gestos e afetos, privilegiam determinadas práticas de consumo, enfim, manifestam-se obedecendo a determinadas produções de sentido em espaços desterritorializados, através de processos midiáticos que se utilizam de referências globais da cultura atual.[2] Assim, o punk deixa de ser uma forma de vestir, um jeito de fazer música e mesmo a cena de Nova York ou de Londes da década de 1970 e se torna um conceito ou “uma coisa filosófica sobre como observa as coisas.“[3]

E, de Recife, DJ Dolores se referiu a esse caráter do punk, que transcende a música.

Essa coisa do punk-rock pra minha geração, gente que tem 40 anos hoje em dia e que via na música não só uma nota atrás da outra mas a musica como uma forma de expressão, como uma forma, vamos dizer, de arte, de arte urbana, de arte contemporânea e tal. Viam no punk-rock essa coisa super explícita. A música não é só música, é uma forma de comportamento, é um jeito da gente falar com as outras pessoas, da gente se comunicar com o resto do mundo, né. O punk rock era uma música que vinha embutida, você comprava um disco de punk rock vinha embutido comportamento, atitude. Talvez por isso que tenha sido uma coisa tão marcante pra nós nessa época.[4]


[1] Jello Biafra - Dead Kennedys - punk attittude

[2] JANOTTI JUNIOR, J.S. Mídia, cultura juvenil e rock and roll, comunidades, tribos e grupamentos urbanos. Anais do 26. Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Belo Horizonte-MG, setembro de 2003. São Paulo: Intercom, 2003

(http://reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/4994/1/NP13JANOTTI.pdf)

[3] Jim Jarmusch – Punk Attittude

[4] Entrevista com DJ Dolores por Rejane Calazans e Clarisse Vianna em 09 de fevereiro de 2007

Punk, uma decepção

Depois de algum tempo, tanto Fred quanto Renato começaram a se decepcionar com o punk, ou melhor, com o que o punk havia virado, uma caricatura.

Até porque, eu e Fred, a gente foi do movimento punk quando a gente era moleque assim, parte dos anos 80. E a gente viu, sofreu na pele, toda a distorção que a grande mídia fez em cima do punk aqui no Brasil, a caricatura, Gilberto Gil, o Jô Soares, personagem de novela, e os próprios integrantes do movimento. Virou um uniforme, você tem que, sabe, era quase como se você estivesse vestindo um uniforme, ser punk. Tinha o corte x de cabelo, a camisa assim, bababa. Então a gente não queria chamar de movimento por todos esses motivos, mas aí a gente começou a trabalhar o mangue nesse conceito de cena.[3]

Apesar do punk também ser reconhecido como cena, e até Renato L observar que a idéia de criar uma cena foi inspirada no senso de coletividade da cena punk, Renato e Fred apontam sua decepção com o punk e a atribuem tanto à sua distorção quanto ao fato de ter sido encarado como movimento. Essa decepção é compartilhada pelos punks de Nova York e Londres.

Tornou-se regra depois quando todos usavam jaqueta de couro com tachas e cortes moicanos e tudo mais.[4] Quando a bola estava rolando para todo mundo, começou a ficar um certo clichê.[5]De repente, o país todo conhecia e todo mundo ia aos shows com aquilo que achavam que era o look do punk rock que era o alfinete na bochecha e as roupas pretas. Mas se olhar as bandas, nenhuma delas tinha alfinete nas bochechas, ninguém usava sacos de lixo, era criação dos tablóides.[6]

No entanto, essa decepção não significa descartar o punk, mas significou uma depuração do que é o punk e uma migração, punk começou a significar mais do que uma cena, não que tenha deixado de significar cena, mas se tornou um conceito.


[1] Alusão à sala de tortura do romance 1984, de George Orwell

[2] LUNA, Adelson “mundo livre s.a./ Fred” (entrevista com Fred Zero Quatro) In: Manguenius (http://www.zaz.com.br/manguenius/numero-00/num-00/ctudo-chamada-fred04.html)

[3] Entrevista com Renato L - 09 de fevereiro de 2007 - Recife

[4] Captain Sensible - The Damned - punk attittude

[5] Howard Devoto - The Buzzcocks - punk attittude

[6] Paul Simon - The Clash - punk attittude

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Os punks da praia

Na década de 1980, Renato L foi a São Paulo, para um encontro de estudantes de jornalismo. E voltou para Recife com uma cópia do Grito Suburbano, uma coletânea em vinil das bandas punks de São Paulo.[1] Como era de praxe, Renato L mostrou sua nova aquisição aos seus amigos.

Então influenciados por aquele som cru e agressivo, todo mundo resolveu fazer a sua banda punk. A minha era Serviço Sujo; Renato fundou a Sala 101[2]. O som era basicamente hardcore.[3]

Renato L e Fred 04, então, começaram a se vestir como punks. Mas Fred vestido com coturnos pretos e alfinetes espetados no rosto não agradava muito sua mãe.

E teve uma época que ela falou assim “eu não criei nenhum punk, se você quiser ser punk, vai morar com os punks”, ela ficava meio horrorizada de me saindo daquele jeito. (...) Eu não tinha como ir morar com os punks, porque não existiam punks. Os punks éramos eu e Renato. (...) Então, a gente criou uma certa forma de burlar essa repressão, burlar o sistema familiar. A gente saía com os alfinetes e as roupas rasgadas na mochila e ia um para a casa do outro. Se encontrava às vezes na praia. Aí voltava de uma farra e ia pra praia, às vezes acordava na praia e ficava um tempão na praia, de coturno. Então, a gente assustava algumas pessoas conhecidas. (...) E ficamos conhecidos como os “punks da praia”.[4]



[1] L, Renato “Saudades de SP” In Manguetronic (http://salu.cesar.org.br/manguetronic/)

[2] Alusão à sala de tortura do romance 1984, de George Orwell

[3] LUNA, Adelson “mundo livre s.a./Fred 04” (entrevista com Fred 04) In Manguenius (http:www.terra.com.br/manguenius/numero-00/num-00/ctudo-chamada-fred04.html)

[4] Entrevista com Fred Zero Quatro por Rejane Calazans e Clarisse Vianna em 11 de fevereiro de 2007